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Regulamentar Fintech: 5 Passos Para Crescer de Forma Sustentável [UPDATE]
Ronald Reagan resumiu de forma sucinta a visão do governo dos EUA sobre regulamentação da seguinte maneira: “Se move, taxe. Se continua a mover-se, regule. E se parar de se mover, subsidie”. Tomando o Reino Unido como exemplo, a tecnologia financeira valia 24,5 mil milhões de dólares no primeiro semestre de 2021, de acordo com a Statista - é seguro dizer que o setor está em alta. Além do efeito económico direto, é preciso considerar o impacto mais amplo da fintech na economia, como a redução do custo do crédito ou do seguro, a melhoria do nível de inclusão financeira e a diminuição dos custos de transações financeiras em remessas, pagamentos e investimentos.
Claro que qualquer setor está sujeito a erros ao longo do caminho. Alguns exemplos globais de fintech incluem a proliferação de esquemas Ponzi na China, juntamente com o crescimento do empréstimo P2P, o uso de bitcoin para compras ilegais e a desinformação de investidores na Lending Club, que levou à queda do fundador da empresa. No entanto, como os benefícios industriais são inquestionáveis, cabe ao regulador conter excessos, simplificar o quadro judicial e estabelecer regras claras para a indústria multifacetada e em rápida ascensão da fintech.
Há um reconhecimento claro mundial de que a regulamentação é necessária para garantir um crescimento sustentável e de longo prazo. No final de 2016, o Office of the Comptroller of the Currency (OCC), uma divisão do Departamento do Tesouro dos EUA, propôs criar uma carta federal para produtos e serviços bancários sem depósito - uma mudança importante para um país com regulamentação financeira estadual por estado, que poderia reduzir barreiras à entrada para empresas que buscam inovar no setor financeiro. Enquanto isso, o Governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, destacou a necessidade de criar uma infraestrutura holística para apoiar o setor em expansão.
Com experiência direta em um setor financeiro regulamentado, desde o Brasil até a UE e Ásia Central, acredito que há várias etapas claras que podem impulsionar o crescimento da fintech globalmente.
1. Comunicação clara com a indústria
Embora pareça óbvio, é fundamental que o regulador envolva a fintech para entender melhor as necessidades do setor. Obviamente, a indústria é apenas uma das vozes, mas, em um ambiente de rápidas mudanças tecnológicas e econômicas, faz sentido obter informações de primeira mão. Isso pode ajudar o regulador a priorizar e focar na resolução de questões estratégicas.
2. Compartilhar funções regulatórias
Sempre que possível, as funções regulatórias devem ser compartilhadas. A abrangência da fintech cobre múltiplos setores: empréstimos ao consumidor e corporativos, seguros, pagamentos, só para citar alguns. Em nossa experiência, faz sentido dividir funcionalmente a regulação. Por exemplo, o banco central ou a divisão de proteção ao consumidor que regula empréstimos ao consumidor pelos bancos deveria também regular áreas similares de atividade fintech. Isso faz sentido do ponto de vista de padrões sincronizados para proteção do consumidor. É do interesse de todos ter um conjunto unificado de padrões sobre combate à lavagem de dinheiro (AML) e divulgação de informações de identificação do cliente (KYC), bem como práticas de cobrança. Além disso, incorporar a regulação de fintech junto com os serviços financeiros tradicionais coloca o setor na central da atenção regulatória.
3. Focar na criação de nova infraestrutura
Qualquer governo deve ativamente investir, patrocinar e promover o que Mark Carney chama de “infraestrutura física” para as novas empresas de serviços financeiros. Esse tipo de infraestrutura muitas vezes é demasiado oneroso até mesmo para investimentos corporativos compartilhados, mas seus benefícios potenciais são claros para qualquer país. As áreas de foco devem ser pagamentos, liquidação, identificação e acesso a dados. Um dos melhores exemplos globais de pensamento estratégico soberano sobre o tema é, sem dúvida, o Aadhaar na Índia – um sistema de identificação biométrica com mais de um bilhão de inscritos, ou seja, a maior parte da população adulta do país. Este projeto gigantesco, aliado à recente repressão ao dinheiro físico na economia, pode realmente transformar a vida de centenas de milhões de cidadãos, incentivando ativamente a inclusão financeira.
4. Compartilhar o uso de infraestrutura existente
Embora a criação de infraestrutura seja claramente necessária, há oportunidades de menor complexidade para impulsionar a competitividade industrial disponíveis para reguladores globalmente. Em primeiro lugar, é fundamental capacitar os cidadãos a assumirem a propriedade de seus dados, mantidos por grandes incumbentes, incluindo bancos tradicionais, seguradoras e operadoras de telecomunicações. A maneira de fazer isso é por meio do compartilhamento obrigatório dessas informações com terceiros, obviamente com o consentimento explícito do proprietário final dos dados. Enquanto isso permite que estes monetizem seus dados e acessem ofertas mais competitivas, também possibilita às fintechs focar no que fazem de melhor: aplicar tecnologias de ponta e análise de dados para identificar ineficiências de mercado. Um exemplo principal de compartilhamento de dados é a diretiva PSD2 na UE, que obriga os bancos a abrir suas informações transacionais para terceiros via API. Essa iniciativa é claramente louvável e deve ser adotada por reguladores ao redor do mundo.
5. Introduzir roteiros de 5 anos
A incerteza regulatória atua como um grande obstáculo, impedindo o desenvolvimento do setor. Primeiramente, essa incerteza bloqueia o fluxo de capital para a indústria, causando uma compressão múltipla de ganhos. Além disso, aumenta a incerteza, dificultando reinvestimentos. É importante destacar que, no mundo fintech, players globais com know-how tecnológico têm a opção de expandir geograficamente. Tudo o que é igual, essas empresas sempre investirão nos países com regras mais transparentes. Isso implica que países que adotam uma postura ambivalente correm o risco de ficar para trás.
O futuro da indústria fintech não será moldado apenas pela adoção de mercado e avanços tecnológicos. O papel do governo em fomentar a fintech e orientá-la para um crescimento sustentável é fundamental.
Alexander Dunaev é COO da ID Finance. Lidera as áreas de tecnologia, P&D, desenvolvimento de produtos, engenharia de modelos de pontuação e ciência de dados. Também supervisiona o desenvolvimento de negócios e a estratégia geral da empresa em parceria com seu CEO. Alexander tem mais de 9 anos de experiência em bancos e finanças, tendo trabalhado anteriormente no Deutsche Bank. Graduou-se no Imperial College London com mestrado em Finanças.